Se uma menina deixa o namorado para você

Se o dia dos namorados ou qualquer outra data comemorativa está chegando, como o aniversário de vocês, uma carta cheia de amor e romantismo pode ser um dos presentes mais bonitos do mundo. Se você está sem ideias, pode se inspirar em qualquer uma dessas cartas de amor para namorado prontas: 'Você é a luz que ilumina minha vida. Se você gosta destes momentos com seu namorado, se confia nele, não há porque se preocupar. Não ligue para o que os outros irão pensar. Agora, se esse garoto ficar espalhando por aí, as intimidades de vocês, ele é um completo idiota. Sem contar que, em nove meses, vocês já se conhecem bastante... Se quiser falar com uma garota que você gosta e que tem um namorado, na esperança dela romper o relacionamento e vocês terem algo mais sério, então é preciso se certificar de que você está conversando com uma garota que vale a pena, uma menina que está realmente interessada em você e não apenas flertando para depois voltar para os ... Pense no quanto você ama o seu namorado. Comece a sua declaração com 'meu amor, meu namorado'. Deixe seus sentimentos fluírem e identifique qual mensagem se parece mais com o relacionamento de vocês. Celebre esse amor tão maravilhoso com frases inesquecíveis. Conquiste ainda mais aquele para quem você diz 'meu amor, meu namorado'! Se você fica feliz apenas quando está com o seu namorado, ou namorada, e sente um vazio quando não está próximo, isso é um sinal de alerta. 5- Excesso de cobranças Kakigori Studio/Shutterstock Dê o presente e peça para ele usar quando estiver com você, faça elogios quando ele estiver usando; 7. Evite discussões bobas: não discuta simplesmente por que tinha uma menina olhando para o seu namorado, ou por que simplesmente você não gosta das amigas dele. Isso não agrada os homens. A melhor namorada não investiga cada passo que o namorado dá. Isso faz de você uma daquelas namoradas irritantes. Ele só vai querer se afastar do relacionamento. Ele vai naturalmente contar para você o que ele fez e por onde anda. Ele também vai naturalmente gostar que você não perguntou. 15. Você pode fazer isso, declarando-se com encantadoras mensagens para o namorado. Seu amado certamente merece receber esse carinho de você. Seja porque uma data especial para vocês está chegando, ou simplesmente porque você quer encher de romance um dia comum, palavras de afeto sempre caem bem. Ele n deixa eu sair com meu namorado, não gosta do meu namorado e não tem motivos pra isso (de verdade), então eu não entendo, estou prestes a ir pra faculdade, sempre fui uma ótima filha, irei fazer 18 anos aqui a uns meses, achei que as coisas ficariam mais fáceis, mas estão mais complicadas.. não sei o que fazer, minha relação ... Se fizer um bolo para outra pessoa, envie uma mensagem para o seu namorado dizendo “bolo quentinho saindo do forno” e, caso ele pergunte, diga que você fez o bolo para outra pessoa. E, mesmo que sobre algum pedaço, não diga a ele que sobrou. Se ele gosta muito de esportes, compre ingressos para um jogo e vá com outra pessoa.

Fui babaca por humilhar minha mãe depois dela ter contado o noivado surpresa que meu namorado preparou?

2020.09.09 22:37 TiaSayu Fui babaca por humilhar minha mãe depois dela ter contado o noivado surpresa que meu namorado preparou?

Yo Mina, Daijobu deska? ♥
Hoje vou contar mais uma desgraça da minha vida e tentar rir com ela pq realmente, tá complicado...
Vim aqui desabafar uma coisa que anda me machucando a cada minuto que passa. Minha mãe sempre foi uma pessoa difícil de lidar... O temperamento dela nunca se deu bem com o meu, e isso já causou muitas brigas e discussões entre nós duas. Uma vez já postei aqui uma outra situação entre nós duas (Acho improvável que alguém se lembre, estava em outra conta na época, mas tentarei repostar para quem queira ler.)
Enfim, sem mais delongas, vamos direto ao desabafo... Semana que vem será meu aniversario de namoro (12/09) vamos completar dois anos de namoro e tudo corria bem. Estávamos preparando nossos presentes e eu estava ansiosa por mais um Level up na relação. Lutamos muito para seguir com esse relacionamento fantástico, e dou graças a Deus por tudo ter dado certo. Somos felizes e tratamos um ao outro com muito respeito e carinho, e não deixamos de ser melhores amigos mesmo na relação de namorados (Não acredito nesse lance de ''há diferença entre amigos e namorados'' é muito melhor ser os dois em vez de escolher apenas um) Enfim, vamos direto ao ponto.
Minha mãe hoje (09/09/2020) veio até mim e me pergunta ''Você e o Carls (Não vou expor) Vão ser noivos?'' A reação que eu tive foi de choque e surpresa, meu pai e minha irmã tiveram a mesma reação e tudo ficou em um silêncio desconfortável.
Logo eu perguntei, incrédula: ''Ele vai pedir minha mão?..''
Depois disso minha mãe arregalou os olhos assustada, vendo que eu não sabia de nada sobre os planos dele. Eu, logicamente, me emocionei e desabei a chorar. Minha mãe, doce como sempre, disse: ''Pare de chorar e controle-se. Larga de ser tonta e pare de chorar'' Além de outros comentários calorosos para o consolo de minha pessoa. Nisto, meu pai interveio e falou: ''Você tinha que abrir a boca? Você achou mesmo que ela soubesse disso?'' e foi assim que tudo explodiu... Minha mãe estava sendo fria como sempre, ela nunca se importou com coisas que feriam meu emocional e psicológico, tudo na visão dela era ''banal'' e ''frescura'' e eu me cansei disso. Minha reação foi imediata e refutei ela de varias maneiras e isso se tornou uma briga feia. Ainda mantive minha educação, mas fui bem sincera e ela não gostou disso (Por que né, a verdade dói) e ela começou a envolver minha sogra e meu namorado, humilhando os dois para ver se conseguia ganhar nos argumentos que eu lançava. (Um detalhe importante... Quando eu estou prestes a discutir com alguém, sou bem linguaruda e irônica demais, isso de certo irrita qualquer um. Mas em nenhum momento a ofendi e nem disse nenhum palavrão, apenas disse algumas verdades que ela não gostou. Obviamente)
Como sempre ela apelou na presença do meu pai e se fez de coitada, saindo da discussão como vitima de uma filha má. Meu pai pediu educadamente para eu pedir desculpas, já que ''peguei pesado com ela''. Me neguei até o momento e não estou disposta a mudar de ideia só por que ela é minha mãe.
Não foi a primeira vez que ela estraga um prazer meu com sua frieza. Ela já errou comigo varias vezes e fui compreensiva em perdoar. Já eu, quando erro, só falta ser exposta para meio mundo e ser humilhada na frente de quem for; O que ela diz e faz, não é exagero na visão das outras pessoas (O que eu acho doentio de certa forma, por que não deixa de ser uma atitude toxica)... Ela pode destruir minha auto-estima e isso não costuma ser exagero por que né, ela é minha mãe e tals.
Na minha opinião não acho isso. Só por que é mãe ou pai não significa que eles tem o Direito total de fazerem exatamente o que querem ou falar o que querem e quando querem, e a criança/adolescente tem que aceitar e pronto. Eu posso ter sido errada em ser grossa e etc, mas eu realmente fiquei chateada pelo o que aconteceu e creio que toda menina (Pelo menos quase todas) teriam essa reação diante de uma resposta tão fria em um momento considerado especial na vida de uma mulhecasal. Meu namorado confiou nela para não contar e ela me faz isso? Além de ter sido um erro grave e um desrespeito com a nossa relação, ela ainda quis se justificar com frieza e grosseria? Eu realmente não deixaria isso barato e foi o que eu fiz.
Então... Fui babaca em fazer isso com ela?
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2020.09.04 21:06 Level-Account-7474 vivendo um paraíso e ao mesmo tempo um inferno

Antes de falar toda o meu "romance", eu deixo claro que dependo dos meus pais, não tenho dinheiro para nada, e também a história provavelmente vai ser clichê para vocês e longa, "sad but true".
Por volta de maio, eu começei a conversar com uma menina que é da umbanda, o terreiro dela é aqui perto da minha casa e sempre observava ela passar na frente da minha casa e achava/acho ela bonita, e pela primeira vez na vida tomei coragem e inicie uma conversar com uma menina(claro, no começo era online kkk pelo ins, mais ainda vale, pq não tinha coragem para nada), passando um tempo a gente decidiu se encontrar pessoalmente( nesta hora já tinha percebido que ela estava interessada em mim) então convidei ela para vim aqui na minha casa, a gente sentou na porta da rua e conversamos por horas( cerca de duas horas e meia).
Mais foi no dia do nosso primeiro encontro( como amigos ainda) que a minha família começou a infernizar minha vida, eles sabiam quem era é da onde era a menina( pq eles sabem todos os membros do terreiros aqui perto de casa, só para ficar falando mal, odioooooo), quando ela foi embora e eu entrei para dentro de casa e ocorreu uma confucao enorme, eles dizendo que eu estava indo para o caminho de satanás( não posso ir para o caminho de um ser que não existe, sim eu sou ateu, mais ainda não falei sobre meu ateísmo e minha família"cristão"), depôs disso ocorreu mais confucao, afinal, agora estou namorado essa menina, gosto muito dela.
OBS: meus pais só fazem discursos de ódio contra outras práticas espirituais dentro de casa, fora eles são as pessoas mais falsas possíveis.
mais o que mais me deixou triste foi anteontem que a minha namorada disse que estava no hora das nossas famílias se conhecerem, mais o que me deixa triste é saber que eles podem vim aqui( minha casa) e conhecer minha família, mais depôs meus pais vão cair encima eles falando várias barbaridades.
o que eu devo fazer? enrolo minha namorada ou conto toda a verdade?
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2020.05.11 10:58 exdomal Meu ex-namorado

A gente namorou por menos de um ano em 2016. Foi um namoro muito conturbado, ele tinha dúvidas do sentimento que ele tinha por mim e em geral ele tem problemas de comprometimento muito sério. Terminamos porque os nossos encontros ficaram menos convenientes porque eu acabei me mudando e daí ficou muito óbvio que não tinha interesse suficiente para manter um relacionamento à distância.
Eu fiquei muito mal porque realmente amava muito ele, foi meu primeiro amor e eu vivi um período muito importante da minha vida com ele. Ele também era uma pessoa muito boa, extremamente inteligente e super bonito. Ele insistiu que a gente ficasse amigos, e eu aceitei porque não queria perder ele da minha vida. Foi horrível por um tempo porque eu continuava agindo como se ele fosse meu namorado – ele me dava atenção o dia inteiro, não dava para superar, sabe? Porque parecia a mesma coisa que antes, foi muito confuso.
Um dia ele arranjou uma namorada, o que era algo bem normal afinal de contas ele não tinha nada comigo e isso era claro mas mudou de conversar comigo todo dia, o dia inteiro, para me responder de maneira muito errática uma vez por semana. Do nada, ele sequer tinha me dito que tava saindo com alguém nem nada, ele me contou isso só depois. Eu fiquei mal com isso, porque a gente conversava todo dia e sentia que ele omitiu isso, eu sinto que de alguma forma ele queria continuar me deixando em stand-by. Ele encarou isso puramente como ciúmes, mas eu sinceramente acredito que era além disso... eu me senti traída não como namorada (que eu não era), mas como amiga também, como você conversa todo dia com alguém e não conta uma coisa tão importante?
Eu lembro nessa época aconteceram duas coisas bem ruins comigo, que foi quando eu mais senti o baque dele ter parado de me responder e foi o que desencadeou a treta que ele me contou da namorada, eu reclamei dele não ter me contado antes etc.
O que rolou foi que eu fui assaltada pela primeira vez, e o cara me ameaçou com uma arma e tal. Eu contei isso para ele, e ele nem me respondeu. Uns dois dias depois, sem resposta dele ainda, eu tava indo para faculdade – que fica numa rodovia – e eu tava na calçada, e um caminhão atropelou um cara de moto. Eu vi a cabeça dele estourada, o cérebro saindo... foi horrível e chocante demais. Eu queria muito ter tido apoio da pessoa que conversava comigo todo dia há alguns anos e era meu amigo mais próximo. Isso é um choque que eu carrego até hoje e realmente me chateou como na época ele cagou pro quão traumatizada eu estava, e depois transformou todo o meu descontentamento com isso em puramente ciúmes.
Vida que segue, ele acabou terminando com essa namorada em menos de 3 meses e voltou a conversar comigo. Na época, ele tinha ficado bem excluído dos amigos e tava com problemas no trabalho e super sobrecarregado e conversava muito comigo porque basicamente eu era a única pessoa que sobrou. Eu dei muito apoio para ele, e ele reconhecia isso e ficava feliz, dizendo que apreciava muito a minha amizade etc.
Isso só durou até ele fazer novos amigos, mas tudo bem porque eu não quero que ele fique em crise a vida inteira, mas me chateia que parece que assim que ele tem pessoas mais interessantes para conviver, ele me escanteia.
Depois, foi a vez de eu começar a sair com um cara, e eu comentei com ele porque a gente ainda se fala com frequência. E ele chorou as pitangas sobre não sentir o mesmo tipo de excitação que eu tinha sobre sair com esse cara novo, porque na época eu tava super ansiosa e apaixonadinha. Eu fiquei com dó dele real, porque ele soava muito sozinho e triste... e eu meio que previa que isso ia acontecer pela dificuldade de compromisso que ele tinha e tudo, e daí um dia ele me comenta que esta mandando CV para empresas de um outro país, daí contando sobre os motivos dele querer mudar, ele me cita que tá saindo com uma menina de lá e que tão pensando em ir morar junto. Nos últimos meses, ele tinha viajado algumas vezes para esse país e nunca mencionou ninguém, mas aparentemente ele estava junto com essa menina por quase 6 meses e nunca mencionou nada e choramingou por falta de namorada para mim quando eu tava saindo com alguém.
Ele acabou não se mudando e terminaram, ou pelo menos ele me contou do término umas 5 ocasiões diferentes e toda vez que eu pontuei "ué, mas vocês não terminaram há um mês atrás?" ele me acusava de ter ciúmes e que por isso ele não me contava sobre relacionamentos dele. Nesse ponto, eu sinceramente nem sei mais porque eu mantenho essa amizade. Eu sou uma pessoa sozinha e acho muito difícil gostar de alguém, e eu realmente me dou bem com ele, e fico apegada a isso.
Recentemente, ele parou de novo de me responder, ele tipo pergunta coisas, e eu me empolgo conversando e fico uma semana sem ouvir resposta. Eu não gosto de conversar desse jeito, me deixa ansiosa, ele sabe disso. Aí eu falei para ele que não dava certo, que eu precisava cortar esse ciclo porque me fazia mal esse comportamento errático dele. Bloqueei ele no FB e WPP, e depois de uns dois dias ele me mandou mensagem no instagram dizendo que tava muito mal, que não queria que eu tivesse raiva dele, etc. Acabamos conversando por telefone, e decidimos ficar de boa, mas que eu queria me afastar um pouco. Ele falou OK, daí eu desbloqueei ele, mas ele continua TODO DIA me mandando mensagem, puxando assunto e depois não respondendo e isso me deixa muito, muito mal, e eu não aguento mais mas me sinto mal de bloquear ele porque ele é realmente uma pessoa que eu gosto e foi importante na minha vida, mas sinto que perdi anos nessa relação bizarra porque nós dois somos fodidos demais para impor limites na nossa relação.
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2019.09.03 22:19 jwachowski NO FUNK

— Eu não gosto de funk!
Carol disse isso e trocou o canal da tevê de cinquenta polegadas na parede da sala de estar de sua casa. Ao seu lado no sofá, Miriele olhou para a tela do próprio celular sem entender muito o porquê daquela reação tão inesperada e enérgica. Sentiu um desconforto estranho mas jamais iria se opor à filha da dona da casa em que sua mãe trabalhava de diarista duas vezes na semana, mesmo que já fossem amigas desde de quando eram apenas meninas que riscavam as paredes que a mãe de Miriele depois tinha que limpar.
— Mirieleeeee! Vamo filha, já é hora. — Disse a mãe de Miriele do quintal após guardar a mangueira que tinha usado para lavar o quintal.
— Eu vou lá. Domingo a gente se vê no vestibular então. — Miriele disse levantando do sofá.
— Ah sim, se meu pai não tiver aqui meu namorado vai me levar de moto.
— Huuumm que chique. Eu vou de mototáxi mesmo. A gente se vê lá. Bjo.
Depois que Miriele foi embora, Carol desligou a tevê e foi para seu quarto. Se jogou na cama box e abriu o notebook. Colocou para tocar um Nirvana. Aqueles gritos do Kurt Cobain faziam sua calcinha molhar. Seus dedos com as unhas pretas foram descendo pela barriga e enquanto olhava o poster do One Direction na parede em frente da cama tirou o short de ficar em casa.
Lembrou que estava menstruada ao ver o absorvente vermelho. O quarto ficou com cheiro de ferrugem quente. O longo cabelo se esparramava pelo travesseiro enquanto controlava muito bem a mão de baixo para que no meio da excitação não sujasse o próprio bico do peito de sangue.
Acabou num suspiro longo junto com a música. Agora tocava um indie folk genérico e feliz. Com violãozinho de base, bandeirola chiando ao fundo e muitas vozes no refrão de silabas soltas. Carol limpou a mão vermelha no short e o jogou com tudo para baixo da cama. Levantou e foi até o espelho olhar o corpo esbelto juvenil. Fez um coque no cabelo e vestiu uma roupa limpa. “ah foda-se! vou matar o banho mesmo! O Willian sabe que eu tô menstruada e não vai vir aqui hoje mesmo.”
Miriele chega em casa com a sua mãe. Guardam as bicicletas na pequena varanda de casa. O irmão menor e único de Miriele joga Minecraft no computador de mesa dela no quarto dividido pelos dois. Ela vai até o guarda roupas e pega o shampoo e o condicionador seda, uma toalha e vai tomar banho. A espuma do shampoo contrasta com sua pele e a fumaça da água do chuveiro amacia seu couro cabeludo enquanto o condicionador desce pelo seu corpo deixando um cheiro de frescor que atravessa o vitro do pequeno banheiro da casa popular.
Ao sair do banho uma mensagem no celular: “Vamo pra praça hoje, Mi?” Ela respondeu com um “Bora”.
Bicicletas passavam para lá e para cá com suas caixinhas de som tocando baile da penha sempre lotado. Algumas rodas neon chamavam a atenção de quem passava. Era gente que estava ali naquela noite quente. Miriele estava agarrada num rapaz que tinha quase dois metros de altura mas apenas dezesseis anos.
O cheiro de maconha rolava solto no ar e como sempre a PM veio mostrar serviço no lado mais fraco da corda. Dois canas passaram revistando a molecada. Pegaram um baseado babado e esculacharam um coitado.
— Nossa, dá nojo desses caras. Você viu? Pra que isso? Vamo embora daqui — Miriele falou para o seu molecão e subiu na garupa da bike dele. Saíram pela noite agora já fresca. Ele ziguezagueava na rua sem carros e ela ria e ria e sentia o vento nas suas pernas de fora enquanto se agarrava as costas do rapaz. Sentia seu cheiro, fechava os olhos. Não sentia receio nem nada. Era liberta na noite.
Dentro da universidade, Miriele já estava na frente do prédio onde iria fazer a prova. Sentia-se sozinha e meio perdida naquele mundaréu de gente. Se arrependeu de ter vindo de mototáxi e não ter deixado sua mãe vir consigo num Uber. Não achou que seria tanta gente assim.
Estava perdida em pensamentos quando viu um carro do ano parar na sua frente e descer dele sua amiga Carol. Esboçou um pequeno sorriso de alivio por ver alguém conhecido.
— Vou aproveitar que você não vai ficar mais só e vou voltar já para o escritório do papai que ele tá precisando de mim lá. Até mais e boa prova para vocês! — Disse o namorado de Carol e saiu com o carro pelo mesmo local que chegou.
— Seu namorado é um fofo hein Carol. — Disse Miriele observando aquele carrão sumir no portão Universidade.
— É… E tá tão cheio aqui. Não achei que viria tanta gente
— Eu também não. — Disse Miriele
— E olha aquele gatinho ali. Nossa o cabelo dele parece o do Kurt Cobain. É melhor que o meu! — Carol disse eufórica enquanto engolia o moleque magricela com os olhos.
— Nossa, se o cabelo dele é melhor que o seu, o meu é o que? — Miriele indagou olhando a amiga nos olhos. Carol percebendo a gafe tentou disfarçar.
— Ah amiga, deixa disso. Você sabe o que eu quis dizer, néh. Sabe que eu não posso ver um cabeludo. Agora vamos que já vai fechar o portão. Eu tenho que passar nesse vestibular se não papai me mata.
Carol terminou primeiro a prova foi uma das primeiras a sair da sala. Chamou pelo whats seu namorado que veio busca-la imediatamente.
Miriele quando terminou estava detonada como qualquer vestibulando. Ligou o celular e viu uma mensagem de Carol dizendo que já tinha ido embora. Ela então foi para o ponto de ônibus em frente a faculdade e pegou o busão para casa. Na estrada, olhava as pessoas pelo caminho subindo e descendo nos pontos da vida. No seu foninho tocava um funk ou um rap que se misturava com a paisagem e com seu cansaço. Sorriu para si mesma. Apesar de tudo ela se sentia viva mas não via a hora de chegar em casa tomar um banho quente, comer alguma coisa e dormir.
Não viu Carol na segunda fase do vestibular. Soube pela mãe que ela não tinha passado na primeira fase. Agora já mais confiante aceitou o conselho da mãe e trouxe chocolate para comer durante a prova.
— Vai lá minha filha. Deus te abençoe e você já passou nessa prova. — Disse abraçando Miriele — Se deus quiser você vai ser a primeira formada da família — disse já com lágrimas nos olhos.
— Ah mãe obrigada.. — Miriele nem sabia o que dizer. Estava emocionada também. — Eu vou lá mãe, te amo.
— Te amo também filha. Vou tá te esperando aqui quando você terminar.
Miriele passou na segunda fase do vestibular.

— Meu pai deu graças a deus que eu não passei no vestibular. Ele diz que nessas faculdades públicas só tem maconheiro e balburdia. Os professores tudo doutrinador. — Carol disse enquanto trocava de canal sem parar por puro tédio.
— Doutrinador? Como assim? Mas como que é que ele sabe? Ele já foi lá pra ver? — Miriele perguntou levantando os olhos da tela do celular.
— Não, mas é o que todo mundo diz por aí.
— Acho que seu pai tá enganado. Se lá não fosse bom porque todo mundo iria querer entrar?
— É, talvez… Não sei…
— Você vai tentar de novo ano que vem? — Perguntou Miriele.
— Não. Sua mãe não te disse que nós vamos nos mudar para Curitiba. Acho que vou fazer uma particular por lá.
— Não, ela não tinha me dito.
— Pois é..
— Mirieleeee! Vamo filha já terminei. — Disse a mãe de Miriele do quintal.
As duas subiram na bicicleta e foram pedalando pela tarde que caía mas uma vez. Pelo bairro nobre Miriele via outras mulheres como sua mãe limpando as calçadas com mangueiras e jatos d’água em casas bregas e bem acabadas.
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2019.09.03 22:18 jwachowski NO FUNK

— Eu não gosto de funk!
Carol disse isso e trocou o canal da tevê de cinquenta polegadas na parede da sala de estar de sua casa. Ao seu lado no sofá, Miriele olhou para a tela do próprio celular sem entender muito o porquê daquela reação tão inesperada e enérgica. Sentiu um desconforto estranho mas jamais iria se opor à filha da dona da casa em que sua mãe trabalhava de diarista duas vezes na semana, mesmo que já fossem amigas desde de quando eram apenas meninas que riscavam as paredes que a mãe de Miriele depois tinha que limpar.
— Mirieleeeee! Vamo filha, já é hora. — Disse a mãe de Miriele do quintal após guardar a mangueira que tinha usado para lavar o quintal.
— Eu vou lá. Domingo a gente se vê no vestibular então. — Miriele disse levantando do sofá.
— Ah sim, se meu pai não tiver aqui meu namorado vai me levar de moto.
— Huuumm que chique. Eu vou de mototáxi mesmo. A gente se vê lá. Bjo.
Depois que Miriele foi embora, Carol desligou a tevê e foi para seu quarto. Se jogou na cama box e abriu o notebook. Colocou para tocar um Nirvana. Aqueles gritos do Kurt Cobain faziam sua calcinha molhar. Seus dedos com as unhas pretas foram descendo pela barriga e enquanto olhava o poster do One Direction na parede em frente da cama tirou o short de ficar em casa.
Lembrou que estava menstruada ao ver o absorvente vermelho. O quarto ficou com cheiro de ferrugem quente. O longo cabelo se esparramava pelo travesseiro enquanto controlava muito bem a mão de baixo para que no meio da excitação não sujasse o próprio bico do peito de sangue.
Acabou num suspiro longo junto com a música. Agora tocava um indie folk genérico e feliz. Com violãozinho de base, bandeirola chiando ao fundo e muitas vozes no refrão de silabas soltas. Carol limpou a mão vermelha no short e o jogou com tudo para baixo da cama. Levantou e foi até o espelho olhar o corpo esbelto juvenil. Fez um coque no cabelo e vestiu uma roupa limpa. “ah foda-se! vou matar o banho mesmo! O Willian sabe que eu tô menstruada e não vai vir aqui hoje mesmo.”
Miriele chega em casa com a sua mãe. Guardam as bicicletas na pequena varanda de casa. O irmão menor e único de Miriele joga Minecraft no computador de mesa dela no quarto dividido pelos dois. Ela vai até o guarda roupas e pega o shampoo e o condicionador seda, uma toalha e vai tomar banho. A espuma do shampoo contrasta com sua pele e a fumaça da água do chuveiro amacia seu couro cabeludo enquanto o condicionador desce pelo seu corpo deixando um cheiro de frescor que atravessa o vitro do pequeno banheiro da casa popular.
Ao sair do banho uma mensagem no celular: “Vamo pra praça hoje, Mi?” Ela respondeu com um “Bora”.
Bicicletas passavam para lá e para cá com suas caixinhas de som tocando baile da penha sempre lotado. Algumas rodas neon chamavam a atenção de quem passava. Era gente que estava ali naquela noite quente. Miriele estava agarrada num rapaz que tinha quase dois metros de altura mas apenas dezesseis anos.
O cheiro de maconha rolava solto no ar e como sempre a PM veio mostrar serviço no lado mais fraco da corda. Dois canas passaram revistando a molecada. Pegaram um baseado babado e esculacharam um coitado.
— Nossa, dá nojo desses caras. Você viu? Pra que isso? Vamo embora daqui — Miriele falou para o seu molecão e subiu na garupa da bike dele. Saíram pela noite agora já fresca. Ele ziguezagueava na rua sem carros e ela ria e ria e sentia o vento nas suas pernas de fora enquanto se agarrava as costas do rapaz. Sentia seu cheiro, fechava os olhos. Não sentia receio nem nada. Era liberta na noite.
Dentro da universidade, Miriele já estava na frente do prédio onde iria fazer a prova. Sentia-se sozinha e meio perdida naquele mundaréu de gente. Se arrependeu de ter vindo de mototáxi e não ter deixado sua mãe vir consigo num Uber. Não achou que seria tanta gente assim.
Estava perdida em pensamentos quando viu um carro do ano parar na sua frente e descer dele sua amiga Carol. Esboçou um pequeno sorriso de alivio por ver alguém conhecido.
— Vou aproveitar que você não vai ficar mais só e vou voltar já para o escritório do papai que ele tá precisando de mim lá. Até mais e boa prova para vocês! — Disse o namorado de Carol e saiu com o carro pelo mesmo local que chegou.
— Seu namorado é um fofo hein Carol. — Disse Miriele observando aquele carrão sumir no portão Universidade.
— É… E tá tão cheio aqui. Não achei que viria tanta gente
— Eu também não. — Disse Miriele
— E olha aquele gatinho ali. Nossa o cabelo dele parece o do Kurt Cobain. É melhor que o meu! — Carol disse eufórica enquanto engolia o moleque magricela com os olhos.
— Nossa, se o cabelo dele é melhor que o seu, o meu é o que? — Miriele indagou olhando a amiga nos olhos. Carol percebendo a gafe tentou disfarçar.
— Ah amiga, deixa disso. Você sabe o que eu quis dizer, néh. Sabe que eu não posso ver um cabeludo. Agora vamos que já vai fechar o portão. Eu tenho que passar nesse vestibular se não papai me mata.
Carol terminou primeiro a prova foi uma das primeiras a sair da sala. Chamou pelo whats seu namorado que veio busca-la imediatamente.
Miriele quando terminou estava detonada como qualquer vestibulando. Ligou o celular e viu uma mensagem de Carol dizendo que já tinha ido embora. Ela então foi para o ponto de ônibus em frente a faculdade e pegou o busão para casa. Na estrada, olhava as pessoas pelo caminho subindo e descendo nos pontos da vida. No seu foninho tocava um funk ou um rap que se misturava com a paisagem e com seu cansaço. Sorriu para si mesma. Apesar de tudo ela se sentia viva mas não via a hora de chegar em casa tomar um banho quente, comer alguma coisa e dormir.
Não viu Carol na segunda fase do vestibular. Soube pela mãe que ela não tinha passado na primeira fase. Agora já mais confiante aceitou o conselho da mãe e trouxe chocolate para comer durante a prova.
— Vai lá minha filha. Deus te abençoe e você já passou nessa prova. — Disse abraçando Miriele — Se deus quiser você vai ser a primeira formada da família — disse já com lágrimas nos olhos.
— Ah mãe obrigada.. — Miriele nem sabia o que dizer. Estava emocionada também. — Eu vou lá mãe, te amo.
— Te amo também filha. Vou tá te esperando aqui quando você terminar.
Miriele passou na segunda fase do vestibular.

— Meu pai deu graças a deus que eu não passei no vestibular. Ele diz que nessas faculdades públicas só tem maconheiro e balburdia. Os professores tudo doutrinador. — Carol disse enquanto trocava de canal sem parar por puro tédio.
— Doutrinador? Como assim? Mas como que é que ele sabe? Ele já foi lá pra ver? — Miriele perguntou levantando os olhos da tela do celular.
— Não, mas é o que todo mundo diz por aí.
— Acho que seu pai tá enganado. Se lá não fosse bom porque todo mundo iria querer entrar?
— É, talvez… Não sei…
— Você vai tentar de novo ano que vem? — Perguntou Miriele.
— Não. Sua mãe não te disse que nós vamos nos mudar para Curitiba. Acho que vou fazer uma particular por lá.
— Não, ela não tinha me dito.
— Pois é..
— Mirieleeee! Vamo filha já terminei. — Disse a mãe de Miriele do quintal.
As duas subiram na bicicleta e foram pedalando pela tarde que caía mas uma vez. Pelo bairro nobre Miriele via outras mulheres como sua mãe limpando as calçadas com mangueiras e jatos d’água em casas bregas e bem acabadas.
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2019.01.18 17:07 RonaldNeves Perspectivas na vida pós termino de relacionamento

Olá, meus amigos. Tudo bem? Resolvi fazer esse post aqui porque eu queria a opinião mais imparcial possível, além de que o "anonimato" que eu tenho aqui me deixa um pouco mais confortável.
Recentemente terminei definitivamente um relacionamento de 6 anos, depois de outros muitos términos antes. O motivo do término foi o mais estúpido possível. Eu achava ela um pouco ciumenta e possessiva (mas quem não é, né?). Pensei que o melhor fosse a gente terminar, pois eu amava de mais ela, mas essa situação me incomodava. Terminamos na primeira semana de novembro. Eu sou uma pessoa extremamente metódica (também conhecido como chato) e eu considerei diversas outras opções que não envolvesse término, mas acreditei que esse seria o 'easy way out'.
Continuamos amigos. Todos os meus amigos e colegas me falaram que isso seria uma má ideia e eu nunca consegui entender o porque. Continuamos conversando todos os dias, ajudei ela nas crises quando a saudade batia e conseguimos com que ela se tornasse mais forte e mais confiante. O motivo dos ciúmes, em sua grande maioria, era por conta de insegurança da parte dela, que muitas vezes não se sentia boa o suficiente pra mim, mesmo comigo reforçando de todas as formas possíveis que eu estaria com ela independente de qualquer coisa.
Como forma de simbolizar o passo novo que ela estaria dando, ela decidiu usar o Tinder, para conhecer pessoas novas, já que o círculo de amizade dela acabou se tornando o mesmo que o meu, dado o tempo de relacionamento e ao fato dela ser muito tímida. E eu encorajei ela mais uma vez.
Ela sempre foi muito curiosa e assim como qualquer pessoa normal, detesta o homem padrão heterossexual e os considera nojentos, por isso, optou por só colocar para conhecer meninas no tal do aplicativo. E nisso ela acabou conhecendo algumas pessoas, saindo com outras e sempre me contando tudo e eu super animado por ela estar evoluindo e crescendo como pessoa - e sem mim, o que torna uma conquista pessoal dela muito mais importante.
Porém, mesmo tendo terminado, durante esse período de novembro - essa semana, nós saíamos muito juntos, além de conversarmos diariamente, obviamente sem o mesmo teor de conversa que tínhamos ontem e sem as 'fofuras'. Semana retrasada, ela disse que resolveu dar uma chance aos 'macho' do Tinder. Nisso, sábado, enquanto estávamos numa festa de um amigo em comum nosso, ela deu match no Tinder com um cara e disse que achou ele fofo. Conversa vai conversa vem e na segunda-feira ela me contou que ele estava aqui de passagem e que já iria voltar pra cidade dele na quarta-feira, mas que queria sair com ela na terça. Eu, como o ex-namorado suportivo que sou, falei "vai, menina". Ela disse que tinha receio de ir, porque o único homem com quem ela tinha se relacionado havia sido eu (namoramos desde a adolescência e fomos o primeiro namorado um do outro) e que não sabia se ia achar legal. Eu consegui convencer ela a ir.
No grande dia, alguns minutos antes de sair, ela pensou em desistir novamente. Eu falei de novo pra ela ir. Antes de sair, ela compartilhou a localização comigo pelo Telegram, botou pra durar 8 horas e disse: "olha, eu tô indo pra tal lugar. vou deixar isso aqui pra caso aconteça algo comigo, você liga pra polícia, ok?" "ok". E lá foi ela.
De hora em hora eu checava pra ver se ela ainda estava no mesmo lugar que ela tinha dito que havia ido e estava indo tudo bem. Até que teve um momento em que ela desativou a localização. Eu pensei "nossa, será que deu problema? tão cedo e ela já vai voltar pra casa". Só que quando chequei o telegram, não havia nenhuma mensagem de "tô voltando". Eu comecei a sentir algo que eu nunca tinha sentido dessa forma na minha vida. Ciúmes. Muitos ciúmes. Eu não conseguia entender. Eu começava a respirar mais rápido e ficar nervoso. Minhas mãos tremiam. Eu não sabia o que fazer. Se ela desligou a localização, era porque ela iria pra algum lugar e não queria que eu soubesse. Mas eu não poderia deixar esse sentimento tomar conta de mim, até porque eu não sabia se foi realmente isso que aconteceu. Era mera especulação minha.
As horas se passaram, até que finalmente, perto das 22h, uma sinal de vida. E as primeiras palavras dela foram: "Nossa... pqp... que dia...".
Eu não sabia. Eu não sabia que iria doer tanto. Eu não sabia o que fazer.
Junto dessas palavras, uma foto. Ele deitado no colo dela recebendo carinho. E de repente eu não conseguia pensar direito. Eu não sabia nem quem eu era ou o que eu estava fazendo. Eu só conseguia chorar. Eu não achei que ver o colo que foi só meu, o carinho que foi só meu, agora é de outra pessoa. Eu ficaria muito tranquilo se fosse como as outras pessoas com quem ela ficou, um cafuné aqui e ali, uns beijos, talvez algo mais, mas depois cada um volta pra sua casa e fica por isso mesmo. Mas dessa vez foi diferente. Um vínculo foi criado. Como ela mesmo disse: "eu senti algo por esse menino no momento que desci do uber e vi ele". E eu estava quebrado. Eu não significava mais nada. Eu realmente não me importaria se fosse um sexo casual ou algo do tipo. Mas eu não sabia que iria doer tanto o fato de que todas as coisas que um dia eu fiz ou recebi, são de outra pessoa.
Porém eu ainda acreditava que isso poderia mudar. Achei que era só um caso, que ele fosse voltar pra cidade dele e isso iria passar. Mas... não. Ela sentiu coisas que não havia sentido antes. Teve experiências que não tinha tido antes. E ela chegou a cogitar juntar dinheiro pra viajar assim que possível pra ir ficar com ele de novo.
Eu ainda amo ela. Mas eu descobri algo pior que isso. Descobri que ainda quero ela. E agora eu não posso mais.
Entrei em desespero. Desabafei com ela. Ela pediu desculpas. Mas que isso já tinha acontecido. E agora ela sente coisas novas. E que não tinha muito o que fazer. Que ela me amava e sempre vai me amar, mas que era isso que ela queria no momento.
Fui vê-la. Eu não conseguia parar de chorar. Eu falei que amo ela. Que eu não considero ela má, ou escrota, ou nada do tipo. Que ela estava fazendo o que está certo e que estava no direito dela. Ela perguntou porque eu não aceitei quando ela pediu pra voltar. Eu respondi de forma sincera. Eu queria voltar. Mas eu pensei muito sobre todas as circunstâncias do término e que a forma que eu tratei ela foi injusta, que ela não merecia ficar comigo depois disso tudo.
E ainda tem alguns agravantes:
- Eu não conseguia abraçar ou beijar ela sem imaginar que ela poderia estar pensando em abraçar ou beijar o outro cara. Eu não conseguiria, caso a gente voltasse um dia, ficar com ela sabendo que tudo que um dia era meu e me fazia me sentir especial agora é de outra pessoa e essa pessoa está se sentindo especial por isso.
- Ela admitiu pra mim que ela estaria sendo hipócrita se dissesse pra mim que ela não quer ficar com esse cara. Ao ponto de considerar juntar todas as economias dela pra viajar e passar tempo com ele.
- Eles conversam tanto quanto eu conversava com ela e costuma mandar vídeos cantando e tocando violão pra ela e ela fica derretida da mesma forma que ficava quando eu fazia algo pra ela.
- Mesmo que a gente voltasse, eu ia me sentir um merda de impedir que ela em algum momento fosse vê-lo, pois eu não me sinto no direito de impedi-la de descobrir o que ela realmente sente por esse rapaz.
Ela tem tentado me acalmar, com medo de eu fazer alguma merda. Mas ao mesmo tempo que ela tenta me acalmar, eu fico mais aflito com o fato de que meu "deadline" é julho. Julho ela vai pra lá ou ele vem pra cá. E eu vou ter perdido ela pra sempre. Tudo isso porque fui omisso e enganador, preguei um discurso de algo que eu não estava vivendo.
Tenho ciência de como eu estou sendo egoísta e hipócrita, mas é como eu me sinto. E eu tenho me sentido horrível.
Eu não consigo ver futuro na minha vida daqui pra frente sem ela. Quando nós terminamos, eu continuava com a sensação de que eu tinha ela "pra mim" por continuarmos sendo tão próximos. E agora eu não sinto mais isso. Ela sempre foi minha primeira opção pra tudo, mesmo depois de termos terminado. Ela sempre é a primeira pessoa que me vem em mente quando quero contar algo legal ou ruim que aconteceu no meu dia.

Ficar sem ela e sofrer pra sempre pois ela vai descobrir que ele realmente é quem ela quer?
Tentar ficar com ela e sofrer pra sempre pensando se ela não estaria melhor com a outra opção ou pensar que eu privei ela de descobrir o que é melhor pra ela?

Eu realmente não sei o que fazer.

Desculpa pelo textão. Eu queria colocar isso em algum lugar, com pessoas que não me conhecessem, porque alivia um pouco saber que alguém, mesmo que esse alguém não se importe comigo, leu e não vai me julgar pelo que me precede.
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2017.11.29 20:20 tombombadil_uk Today I fucked up: a estranha sensação de reencontrar um amor do passado 12 anos depois / Parte 3

Galera, finalmente postando a última parte da saga. Depois de pensar para caralho, resolvi falar com ela pelo Facebook e marcamos de nos encontrar num café pertinho da praça onde nos esbarramos. Para quem não conhece a história desde o começo:
Parte 1 - TL/DR: sou casado, reencontrei uma garota por quem eu era apaixonado há 12 anos e só nesse reencontro eu percebi como eu fui um imbecil com ela. Em resumo, nós éramos grandes amigos, eu fiquei com medo de me declarar, meti o pé do curso de inglês que fazíamos sem dar nenhuma explicação e desapareci completamente da vida dela.
Parte 2 - TL/DR: comecei a me perguntar se aquela garota que eu reencontrei realmente era ela, já que ela parecia tão mais velha. Depois de dezenas de tentativas, achei ela no Facebook e sim, realmente era ela. Descobri que um amigo meu já tinha saído com uma prima dela há muito tempo e soube que ela teve uma vida bem escrota, foi abandonada por um marido meio babaca e agora basicamente vivia só pelo filho na casa dos pais.
Parte 3 - Taí. Nos reencontramos. Foi uma experiência que eu não sei classificar. Foi feliz, foi triste. Foi amargo, foi doce. Foi impressionante. A gente chorou um pouco junto. Escrevi um pouco ontem à noite e terminei hoje de manhã.
Só queria agradecer a todos os conselhos e dicas que recebi aqui. Reencontrar alguém do passado é uma coisa que mexe muito com a gente, faz com que nosso coração se sinta naquela época novamente. Essas quase três semanas foram muito estranhas. Foi quase uma viagem no tempo por coisas que eu achava já ter esquecido completamente. Infelizmente não posso dividir muito disso com amigos próximos, então fica aqui o desabafo.
Esse último ficou mais longo do que eu esperava. Honestamente, a gente conversou tanto que acho que resumi até demais. Como da primeira vez, fiz em formato de conto. Novamente, obrigado a todo mundo que deu um help nessa história, que finalmente se fechou.
Era um café bonito. Novo da região, era um daqueles negócios em que você vê o coração de um sonho do dono. As mesas rústicas de madeira, as lâmpadas suspensas que desciam do teto em fios de prata, como teias de aranha tecidas por vagalumes. O quadro negro cuidadosamente preenchido com os preços e até desenhos estilizados de alguns pratos. No fundo, um jazz instrumental marcava presença de forma tênue. Também era um daqueles negócios que você sabe que não vai durar muito. Que você bate o olho e pensa: “com essa crise, é melhor eu dar um pulo lá antes que feche”.
Eu presto atenção a cada detalhe ao meu redor. À roupa preta das atendentes, ao supermercado do outro lado da rua que vejo pela vitrine. Aos clientes que entram e saem de uma loja das Casas Pedro. Eu não quero esquecer de absolutamente nada. Era um ritual meu que fiz pela primeira vez aos 14 anos. Sempre tive boa memória, mas naquela época eu me esforcei para colocá-la inteiramente em ação. Era um verão e eu estava prestes a reencontrar uma prima que, anos atrás, fora minha primeira paixão. Ela nos visitava de anos em anos e, três anos após trocarmos beijos juvenis debaixo do cobertor, ela havia acabado de chegar à casa dos meus avós, onde se hospedaria.
Naquela noite, eu não consegui dormir. Por volta das 4h da manhã, peguei meu cachorro e caminhei 15 minutos em meio à madrugada até a casa da minha avó. Não, não fui fazer nenhuma surpresa matinal ou pular a janela em segredo. Eu apenas fiquei do outro lado da rua e observei tudo ao meu redor. “Eu vou lembrar desse reencontro para o resto da minha vida”, pensei, do alto dos meus 14 anos. “Eu quero lembrar de cada detalhe”.
E até hoje eu lembro. Da rua cujo chão estava sendo asfaltado, mas onde metade da pista ainda exibia os bons e velhos paralelepípedos. Das plantas da minha avó balançando ao vento, o som singelo dos sinos que ela mantinha na varanda e davam àquilo tudo um clima quase de sonho. Do meu cachorro, fiel companheiro que viria a morrer dois anos depois, sentado ao meu lado com metade da língua para fora. Do frescor da madrugada que precedia o calor inclemente das manhãs do verão carioca.
Mas não é dessa memória - e nem dessa paixão - que eu falo no momento. Eu falo dela. Dela, que eu reencontrei depois de tanto tempo. Que eu julgava já ter esquecido. Que, apenas mais de dez anos depois, eu percebi que tinha sido um babaca ao desaparecer sem qualquer despedida. Mesmo que ela jamais tivesse segundas intenções comigo, mesmo que fosse apenas uma boa amiga, eu havia errado. E aquela era o dia de colocar aquilo, e talvez mais, a limpo.
Foram três semanas de tortura comigo mesmo. Desde que achara seu perfil no Facebook e ouvira de um amigo em comum notícias de uma vida triste, seu rosto não me saía da cabeça. Ao menos uma vez por dia, eu pagava uma visita ao seu perfil e mirava aqueles olhos. As fotos, quase todas ao lado da mãe e do filho pequeno, tinham um sorriso fugaz encimado por olhos dúbios, tristes. Eles lembravam-me de mim mesmo. “Você tem um olhar de filhote de cachorro triste, por isso consegue tudo que quer”. “Você parece feliz, mas sempre que para de falar por um tempo, parece ter uns olhos tão tristes”. “Essa cara de pobre-coitado-menino-sofredor é foda de resistir, dá vontade de levar para casa e dar um banho”. Eu já havia perdido a conta de quantas vezes ouvira aquilo das minhas ex-namoradas e ficantes da faculdade. Os dela não eram muito diferentes. Quando ela finalmente apareceu, com sete minutos de atraso, eu pude perceber.
Meu coração parou por uma fração de segundo e depois disparou, como se os sineiros de todas as catedrais que haviam dentro de mim tivessem enlouquecido. Era engraçado como algumas pessoas passavam vidas inteiras sem mudar o jeito de se vestir. Ela ainda parecia com aqueles sábados em que nós nos encontrávamos no curso de inglês: os tênis All-Star, a calça jeans clara, uma camiseta simples - de alcinha, branca e com corações negros estampados - e o cabelo com rigorosamente o mesmo corte. “Talvez por isso que foi tão fácil reconhecê-la, mesmo depois de todo esse tempo”, pensei. Ou talvez eu reconhecesse aquele rosto e aqueles olhos - antes tão vivos e alegres - em qualquer lugar. Eu jamais saberia.
Como qualquer par de amigos que não se vê há milênios, falamos de amenidades no começo. Casei, separei. Sou funcionária pública, ela dizia. O relato do meu amigo, eu descobria agora, não estava perfeitamente certo. Ela não havia se demitido do trabalho, apenas se licenciado por algum tempo. “Fui diagnosticada com depressão”, ela admite, sem muitas delongas ou o constrangimento que tanta gente tem sobre o tema. “Meu casamento estava indo muito mal e eu desabei. Mas agora tá tudo bem”. Não estava, não era necessário ser um especialista para notar aquela tristeza escondida no canto do olhar.
Falei da minha vida para ela também. Contei que a minha ex-namorada que ela conheceu não deu certo e que, naquela época de fim da adolescência e início da vida adulta, eu tinha muita vergonha de falar sobre o que eu passava. Ela praticava gaslighting comigo, tinha crises de ciúme incontroláveis, me fazia sentir um crápula por coisas que eu sequer havia feito. “Você parecia tão feliz com ela”. “Eu finjo bem”, admiti. “E eu tinha vergonha de mostrar para os outros o que passava. Homem dizendo que a mulher é abusiva? Eu não queria que ninguém soubesse”.
Após quase meia hora de amenidades, eu exponho o elefante na sala de estar. Na verdade, quem começa é ela. Quando a adicionei no Facebook, falei que tinha esbarrado com ela na rua e que ficara com vergonha de cumprimentá-la na hora. Mas que queria muito revê-la depois de tanto tempo, tomar um café, falar sobre a vida. “Por que você sumiu?”, ela pergunta, no meio de um daqueles silêncios que duram mais do que deveriam. Eu tremi por dentro, mas não havia como continuar escondendo.
No começo, falei o básico. Que era de família humilde, como ela bem lembrava, e que o parente que pagava meu curso havia descoberto um câncer. Poucos meses depois, eu perdi meu emprego. Tudo isso num intervalo curto, de três ou quatro meses e perto da virada do ano. “Me ligaram do curso e ofereceram um desconto. Eu era pobre, mas sempre fui orgulhoso. Naquela época, era mais ainda. Burrice minha. Se bobear, eles iam acabar me oferecendo uma bolsa”. “Eles iam”, ela responde. “O Francisco - dono do curso - era maluco por você. Você era um ótimo aluno”. Ela dá um gole no mate que pediu. Meu café esfria ao meu lado. “Mas por quê você não falou nada comigo?”, ela continua.
Eu sabia que estava num daqueles momentos em que poderia mudar radicalmente o dia. Porque eu poderia ter mentido. “Eu não falei porque fiquei com vergonha de ter perdido o emprego”. “Eu não falei porque eu estava muito triste: parente próximo com câncer, desempregado, meu relacionamento com uma pessoa abusiva”. Eram mentiras com um pouco de verdade, mas não revelavam o grande problema. Naquele fim de tarde, eu escolhi não mentir. Nem me esconder. E eu já tinha ensaiado essas palavras dezenas de vezes nas últimas semanas.
“Olha, eu não sei se dava para reparar na época ou não. Não sei era muito óbvio, sinceramente. Mas eu era completamente apaixonado por você naquele tempo. Eu passava a semana inteira pensando no dia em que a gente ia se encontrar, trocar uma ideia no curso, caminhar junto até a sua casa. E eu tinha uma vergonha absurda disso. Eu tinha namorada, você tinha namorado e estava para se casar. Então eu achava errado expor aquilo, ser claro. E eu achava que você não gostava de mim. Eu tinha auto-estima muito baixa e esse relacionamento com essa ex-namorada abusiva só piorou as coisas. Eu me sentia um lixo, então achava que você não ia ligar se eu sumisse. Que ninguém ia ligar se eu sumisse. E foi o que eu fiz. Mas, se você quer uma versão curta da resposta, é essa: eu era completamente apaixonado por você naquela época e quis sumir, sair correndo”.
Enquanto eu falava aquilo tudo, a boca dela se abriu em alguns momentos. Às vezes parecia surpresa, às vezes parecia que ela tentaria falar alguma coisa que se perdia no caminho. Eu fazia esforço para olhá-la nos olhos, mas era difícil. Mesmo depois de todos esses anos. Tentei dar a entender com o tom de cada palavra que aquilo era uma coisa do passado, que não me incomodava mais, que agora eu queria apenas revê-la e saber como andava a vida.
O desabafo foi seguido de um silêncio que tornava-se mais pesado a cada segundo. Havia alguma coisa fervendo dentro dela, dava para ver. Foi aí que os olhos dela brilharam mais do deveriam, lacrimejando. Quando vejo aquilo, sinto que o mesmo vai acontecer comigo, mas me seguro. Ela vira o rosto e olha para além da vitrine, onde um ponto de ônibus está lotado com os clientes do supermercado e estudantes recém-saídos de suas escolas, o trânsito lento e infernal. A acústica é tão boa no bar que o caos de fim de tarde do outro lado do vidro parece uma televisão ligada no mudo. Quando ela me olha de volta, vejo que ela não faz qualquer esforço para esconder os olhos marejados.
“E você nunca me contou nada? Nem pensou em me contar?”.
Eu não sei quantos de vocês já ficaram sem notícias de um parente ou de alguém que você ama por muitos anos. Aconteceu comigo uma vez, com uma tia que desapareceu por quase 10 anos no exterior e reapareceu após ser mantida em cárcere privado por um namorado obsessivo. A sensação é estranha. É como descobrir que um livro que você tinha dado como encerrado tinha uma continuação secreta. As memórias de hoje se misturavam com as de 12 anos atrás, da última vez que li esse livro. Ela começou a contar tudo.
Ela, como eu já disse antes, era o meu ideal de felicidade. Casara cedo, tivera filho cedo, empregara-se no serviço público cedo. Era tudo com o que eu sonhava. Eu sempre quis constituir uma família, ter uma vida simples, ter um filho cedo para poder aproveitá-lo ao máximo. Mas a falta de dinheiro e a busca por uma parceira ideal sempre ficaram no caminho, assim como a carreira. O problema é que ela tinha uma vida muito diferente do que eu imaginava, muito mais parecida com a minha à época.
Acho que já deixei claro o quanto eu era apaixonado por ela no passado. Ela não era bonita nem feia, tinha o tipo de rosto que se perde na multidão sem ser notado. Filha de pai negro e mãe branca, era morena e tinha o cabelo liso levemente ondulado, quase até a cintura. Quando éramos adolescentes, ninguém a elegeria a mais bela da turma, mas dificilmente negariam que tinha seu charme. Eu a achava linda.
Mas ela, como eu, era o tipo de pessoa que tinha a auto-estima no fundo do poço. Como eu, também cresceu em um lar bem humilde. Também colecionou desilusões amorosas. E, como todo mundo já sabe, isso te transforma em um alvo perfeito para relacionamentos abusivos. O namorado dela, assim como a minha namorada à época, era muito bonito e manipulador. E ela achava que ele era a única pessoa que gostava dela, o único que lhe daria atenção. E isso fez com que, por anos, ela suportasse tudo que aconteceu entre eles. Traições, brigas, mentiras, chantagens, ameaças de abandono, ciúmes doentios. A história deles dois era tão parecida com a minha história com minha primeira namorada que eu fiquei assustado. Só que, diferente de nós, eles casaram. Eles colocaram um filho no mundo.
Ele só piorou com o nascimento da criança. Ele não era mau com o filho, ela dizia. Era um pai carinhoso, inclusive. Mas o pouco amor e bondade que ele tinha por ela transferiu-se todo para a criança. Vivia para o trabalho, para o filho e para os amigos.
“A gente chegou a ficar sem se falar por meses”.
“Morando na mesma casa e sem se falar?”.
“Sim. Nem bom dia. Nada. Eu me sentia um fantasma”.
Na contramão dele, ela dobrava-se para dentro de si própria. Abandonou a faculdade para cuidar do filho enquanto o marido formou-se com seu apoio fiel. Vivia para o filho e tinha seus problemas conjugais menosprezados pela família. “É coisa de garoto, ele vai melhorar”. “Homem quando acaba de ter filho é sempre assim”. “Vai passar”. Mas não passou, só piorou. As traições recorrentes evoluíram para uma equação desequilibrada de álcool e uma amante fixa no trabalho que ele sequer fazia questão de esconder. Ele anunciou que ia deixá-la, convenceu-a de que era um bom negócio vender o apartamento que eles haviam comprado. Racharam o dinheiro e ele foi viver a vida. Ela voltou a morar com a mãe, agora viúva.
O filho, nitidamente a coisa mais importante daquela mulher, tornou-se a única razão para viver. A pensão que a mãe recebia era baixa, o salário dela também não era bom. A pensão que o marido dava ajudava a manter uma vida extremamente funcional e sem luxos. As roupas eram das lojas mais baratas. Viagens não existiam. O único gasto relativamente alto era com uma escola particular de qualidade para o filho. O resto era sempre no básico.
Contei para ela sobre o meu sonho de casar cedo, de ter uma vida tranquila e estável. Falei que eu admirava muito a vida que ela escolheu no começo, que era a vida que eu queria ter vivido. A grama realmente é mais verde no jardim do vizinho, ao que parece.
“Mas a sua vida parecia tão tranquila, tão perfeita”.
“A minha?”.
“A sua namorada naquela época era uma menina tão bonita, eu lembro dela. Loira, bonita de corpo. Até lembro que ela fazia medicina e ainda era dançarina. Eu achava ela linda, perfeita. E você… você era sempre tão fofinho. Carinhoso e atencioso com todo mundo. Inteligente pra caralho, nem estudava e tinha as notas mais altas em tudo. Todo mundo gostava de você, todo mundo queria ser seu amigo e você nem se esforçava para isso”.
“Eu não lembro disso…”.
“Porque você não se achava bom. Você tinha 16, 17 anos e sentava para conversar de igual para igual sobre cinema e livro com uns professores de 40 e poucos anos. Você parecia fluente conversando com os professores em inglês e espanhol enquanto a gente tentava chegar perto disso. Passou no vestibular de primeira. Você não percebia, mas você era o queridinho de todo mundo. Você não era o garoto malhado bonitão, você era o garoto charmosinho e inteligente que todo mundo gostava. Eu gostava de você também. Gostava mesmo, de verdade. Eu tinha uma paixãozinha por você. Mas eu achava que eu não tinha a menor chance. Eu achava que eu merecia o meu namorado. Que eu era feia, ruim. Que ele estava certo em me falar aquelas coisas”.
“Eu era completamente apaixonado por você”, eu respondo. “Eu pensava em você todo dia”.
Engraçado como as pessoas se veem de maneira tão diferente. Eu me definia de três formas quando a conheci: eu sou gordo, eu sou feio, eu moro num dos bairros mais pobres e violentos da cidade. No dia seguinte, de manhã, eu olharia minhas fotos de 12, 14 anos atrás e me surpreenderia com quem eu via ali. Eu era bonito, só um pouco acima do peso. Com 16 anos, eu já era o barbado da turma antes de barba ser coisa hipster. Na foto do colégio, uma das últimas do terceiro ano, eu parecia tão dono de mim, tão no controle. Eu tinha aquela cara de inteligente e rebelde. Por dentro, eu era completamente diferente. Inseguro, assustado, sem auto-estima alguma e com uma namorada abusiva.
São sete e meia e a noite já começa a cair no horário de verão. Educadamente, uma das atendentes nos indica que a galeria onde o café funciona vai ser fechada em breve. Eu pago a conta e nós ficamos meio perdidos, sem saber o que fazer. Ela ainda tem os olhos inchados, eu também. Os funcionários da loja nos olham de forma surpreendentemente carinhosa, não sei o quanto eles escutaram do desabafo.
Saímos em silêncio do café, ela atendeu a uma ligação da mãe. Minha esposa estava fora do estado e só voltaria dali a alguns dias, então eu estava bem relaxado em relação às horas.
“Não sei se você precisa voltar para a casa por causa do Hugo, mas tem um bar aqui perto que é bem vazio a essa hora. A gente pode sentar pra conversar”, eu digo.
“A gente tem mais coisa para conversar?”. Ela pergunta sorrindo, não vejo nenhum traço de mágoa no seu rosto.
“Claro que tem. Doze anos não se resolvem em duas horas”.
Fomos para um bar pequeno ali perto, um que eu costumava frequentar nos tempos de faculdade. Nos tempos em que eu pensava nela e não me achava capaz de tê-la. Ele pouco havia mudado de 12 anos para cá: a mesma atmosfera que fazia dele aconchegante e levemente depressivo ao mesmo tempo. Era um bar das antigas, com azulejos portugueses azuis e poucos frequentadores. O atendimento era excelente e o preço razoável para a região, mas aquela estética de 40 anos atrás parecia espantar os frequentadores mais jovens. Os poucos que iam lá, no entanto, eram fiéis. Como eu fui no passado.
Nos sentamos no fundo do bar vazio em plena terça-feira e desnudamos nossas vidas um para o outro. “Eu quero saber quem você é”, eu comecei. “A gente falava sobre um monte de coisa, mas eu não sei nada sobre você. Sobre sua família. Sobre sua infância, quem você é. E você não sabe nada sobre mim”. Ela riu. “Você é maluco”. “Não, só quero te conhecer melhor. Compensar por ter sido um babaca há doze anos”.
A conversa foi agridoce. O que mais me assustava era como tínhamos origens semelhantes, desde a família até a criação. Os dois criados no subúrbio do Rio de Janeiro, os dois de famílias humildes que, por conta da pobreza e da necessidade de contar uns com os outros, permaneciam unidas. Primos de terceiro ou quarto grau criados próximos, filhos que casavam e formavam suas famílias nas casas dos pais. Assim como a minha família, a dela investiu tudo que tinha para que ela estudasse em um colégio particular até que eventualmente ela passou para uma escola pública de elite.
Nossas duas famílias tinham essa estranha tradição carioca que mistura catolicismo, umbanda e espiritismo, um sincretismo religioso que eu, como ateu, tenho dificuldade em entender - mesmo tendo crescido nesse meio. Assim como eu, achava-se feia, indesejada na adolescência. Isso fez com que rapidamente trocasse o mundo cor de rosa pelo rock e pelos livros. No meu caso, eu acrescentaria videogames e RPG, mas o resto não mudava muito.
“Na minha escola, tinha muita patricinha, muito playboy. Eu não aguentava eles. E eles sabiam que eu era pobre, então não se misturavam muito comigo”. Contei a minha versão para ela. “Eu gostava de ler, RPG e jogar videogame. Mas eu era muito pobre, fodido mesmo. E isso tudo era coisa de gente com grana na época, né? Então eu acabei ficando amigo dos nerds na época por conta dos gostos comuns. Eu tive sorte, demoraram a perceber que eu era pobre. Eu tenho toda a pinta de gente com grana, essa cara de europeu que engana. Quando perceberam que eu era duro, foi só no segundo grau. Ali eu já era um pouco mais cascudo, tinha bons amigos”. Ela não.
Era tudo tão igual que, em dado momento, eu parei de falar que havia sido igualzinho comigo. Eu esperava ela terminar a parte dela. Falava a minha. E intercalávamos nossas histórias, os dois surpresos com as semelhanças. Provavelmente a grande diferença era a vida dela após ter o filho e abandonar a faculdade. Ela trabalhava em uma repartição pública onde tinha 20 anos a menos do que a segunda funcionária mais nova, se afastou dos amigos. Era estranho conversar com ela. Não usava redes sociais praticamente, apenas para trocar mensagens com parentes distantes e mostrar fotos do filho para eles. Não via séries, não tinha Netflix - só novelas. Não conhecia bandas novas, não era muito de ir ao cinema. Era uma sensação estranha, mas parecia que boa parte da vida dela tinha parado em 2006 ou 2005. Os hábitos dela e poucos hobbies pareciam os de uma pessoa de 50 e poucos anos.
Me doeu imaginar o que poderia ter sido, o que poderíamos ter feito juntos, como poderíamos ter sido bons um para o outro. Pensei na minha esposa, que tem um perfil familiar radicalmente diferente do meu. Ela vem de uma família de classe alta, só com engenheiros e funcionários públicos de elite. O mundo dela era muito diferente do meu, tão diferente que às vezes me assustava. Famílias que não se falavam e que, mesmo endinheiradas, brigavam por herança e cortavam laços de vida por conta de bens que eles não precisavam. Todos católicos ou evangélicos, sem exceção. No máximo um ou outro ateu escondido no armário, como eu.
Essa diferença nos causava estranhezas, pontos de atrito que me surpreendiam. Quando eu elogiava a decoração de uma festa, ela falava do preço e da empresa que a produziu. Ela sentia uma obrigação social em aparecer em eventos familiares ou do círculo social deles, de ser e parecer uma boa esposa. Eu só queria estar onde eu estava afim e quando eu estivesse afim, nunca vi a família como uma obrigação social. Eles discutiam herança entre irmãos com os pais bem vivos, nós nos preocupávamos em fazer companhia à minha mãe quando meu pai morreu. Já era meio subentendido que abriríamos mão de qualquer coisa e deixaríamos tudo para minha mãe, tendo direito ou não.
Havia uma preocupação com patrimônio, normais sociais e aparências que, por muitas vezes, me assustavam. Muitas vezes ela parecia desgastada ou enojada com isso também, mas fazia porque alguém na família tinha que fazer, porque era tradição, porque sempre foi assim. Eu assistia àquilo atônito, impressionado como uma família tão numerosa quanto a minha - com literalmente dezenas de primos e tios até de terceiro grau que moravam em um mesmo bairro - era tão mais simples e unida do que uma dúzia de endinheirados que pareciam brigar por coisas fúteis.
Ela, que estava ali do meu lado, não. Tudo que ela me contava soava como uma cópia fiel da minha família, apenas em escala ligeiramente menor. Pensei em como as coisas seriam simples ao lado dela, despreocupadas, tranqulas. Que eu não passaria a vida sendo julgado pela família da minha companheira como o ex-pobre com pinta de hipster que conseguiu ganhar algum dinheiro, mas não tem muita classe nem é muito cristão, como nos últimos anos.
As palavras que saíram da boca dela depois de uns dois ou três copos de cerveja poderiam muito bem ter sido lidas do meu pensamento. “Você acha que a gente teria sido um bom casal? Que a gente ia se dar bem?”.
“Não tem como saber”, eu respondi. “Mas a gente pode imaginar”. E a gente começou a brincadeira mais dolorosa da noite, imaginando como seria se tivéssemos ficado juntos 12 anos atrás.
“Eu jogava videogame para caralho, você ia se irritar. E eu ia te pentelhar para jogar comigo”, eu comecei.
“Eu gostava de videogame, só não jogava muito. Eu ia te arrastar para show da Avril Lavigne e da Pitty, você não ia gostar”.
Eu sorri. “Eu não tenho nada contra as duas”.
“Britney e Justin Timberlake também”.
“Porra, aí você já tá forçando a barra, amor tem limite”.
Falamos sobre meus primeiros estágios, sobre como eu era maluco e fazia dois estágios e faculdade ao mesmo tempo. Saía de casa às cinco da manhã e voltava às onze da noite. Tudo para conseguir ter uma grana legal, já que na minha área os estágios eram ridiculamente baixos. Ela falava sobre a rotina de estudos para concurso, sobre como foi difícil conciliar a faculdade - que ela eventualmente abandonou por causa do filho - com o recém-conquistado emprego público. Eu falava do meu início de carreira, que foi bem melhor do que eu jamais imaginara, como subi rapidamente. Como eu achava estranho ganhar a grana que eu ganhava - que não era nada extravagante, garanto - mas meus hábitos simples faziam com que eu mal gastasse metade do salário. Ela falava da depressão que tomou conta dela ao perceber que estava num emprego extremamente burocrático e ineficaz, deixando-a incapaz de buscar outras alternativas. Falamos sobre a morte dos nossos pais, que parecem ter conspirado para falecer no mesmo ano.
Em algum momento, a cabeça dela repousou no meu ombro. Eu não soube o que fazer. Pensava apenas na minha esposa, em jamais ter traído ela nem nenhuma outra mulher. Foi aí que eu percebi que ela chorava e, novamente, eu chorei também.
“É engraçado a gente ter saudade de algo que a gente não teve”, eu disse, lembrando de um livro que eu li há muito tempo.
“Acho que a gente seria um casal do caralho”, ela disse, com um inesperado sorriso entre as lágrimas.
“Ou talvez a gente se detestasse e desse tudo errado, a gente nunca vai saber”.
“A gente nunca vai saber”, eu repeti, mentalmente. Como um vírus, a ideia se espalhou dentro de mim rapidamente. “Eu posso fazer uma diferença na vida dessa mulher, na vida do filho dela, na própria família dela. Eu posso ter uma vida mais tranquila ao lado dela, sem essas picuinhas de família rica. Minha esposa pode encontrar um homem muito melhor para ela. Um cara rico, cristão e que tenha a classe e pose que a família dela tanto quer. Isso pode acabar bem para todo mundo”.
Mas não podia. Lá no fundo, eu sabia que não podia. Eu tinha quase uma década de história com minha esposa. Eu tinha um casamento plenamente feliz atrapalhado por alguns poucos problemas familiares e inseguranças minhas. Tínhamos uma química ótima, gostos parecidos para livros e filmes, nos dávamos bem na cama. Valia a pena jogar aquele relacionamento tão bom e funcional - algo que me parece cada vez mais raro hoje em dia - por uma aventura fugaz? Um remorso do passado? Em um relacionamento com uma estranha que eu estava voltando a conhecer havia algumas horas?
“Você nem a conhece”, dizia a cabeça. “Ela é igual a você”, dizia o coração.
No fim das contas, eu segui a cabeça. Conversamos até quase dez da noite. Pegamos um Uber e fiz questão de deixá-la em casa, um prédio pequeno em um bairro abandonado do subúrbio. Quando o carro parou, ela se demorou um pouco do meu lado e, por impulso, eu segurei a mão dela. Ela me encarou assustada e ansiosa. Eu pensei em beijá-la, em ligar o foda-se e jogar tudo para o alto ali mesmo. Mas eu só desci do carro com ela na rua deserta e caminhamos juntos para dentro do prédio, sem saber exatamente o que a gente estava fazendo. Pedi para o motorista me esperar e disse que depois acertava uma compensação com ele.
“Eu vi o seu Facebook. Você é casado com uma mulher linda. E inteligente. Você não vai me trocar por ela. Nem eu quero acabar com o seu casamento”.
“Você acha ela linda e inteligente?”.
“Você sabe que ela é”.
E então eu desabafei. Falei que passei as últimas semanas reavaliando meu casamento e meu futuro, encarando a foto dela no Facebook de tempos em tempos. Que meu coração quase parou quando encontrei-a pela primeira vez. Que eu gostava de tudo nela. Da dedicação como mãe, da simplicidade, dessa aura de pessoa correta que ela exalava sem fazer esforço, desse espírito suburbano e familiar que ela tinha. Dos olhos dela, tão animados no passado e tão tristes agora. De como eu estava me segurando para não beijá-la naquele dia todo.
“Você é linda. Eu sei que você se acha feia, eu sei que você acha que ninguém vai se interessar por você. Mas você é uma mulher foda, e nem preciso subir para saber que você é uma mãe foda, uma filha foda. Não deixa a vida passar. Eu tenho certeza que tem mais gente que, igual a mim, já percebeu isso em você e não sabe como falar. Não faz de novo a mesma coisa que a gente fez lá atrás. Eu só queria que você soubesse disso porque eu acho que você merece ser muito mais feliz do que você é agora. E você não tem ideia de como você me deixou maluco esses dias todos. Eu sou bem casado com uma mulher linda sim, mas só de encontrar você eu tive vontade de jogar tudo para o alto”.
Foi um monólogo mais longo do que eu esperava. De novo, ela chorou. Dessa vez, eu contive as lágrimas. O abraço que partiu dela foi um dos melhores e mais tristes que já ganhei na minha vida. Havia ali uma história de amor não vivida, saudades de uma história que jamais colocamos no papel, de um mundo que nunca existiu. Ela me apertou forte e eu sentia minhas mãos tremerem.
Encostamos as laterais do rosto um do outro, aquele prenúncio de um beijo adiado. E que tive que usar todo auto-controle do mundo para manter adiado. Me afastei, olhei nos olhos dela, sorri e fui embora. Quando o Uber saiu, ela ainda estava parada na portaria e minhas mãos ainda tremiam.
Eu não sei se essa história acaba aqui ou não. Mas eu tenho quase certeza que sim. Algum dia eu vou contar tudo isso para a minha esposa, mas vou esperar esse sentimento morrer primeiro. Eu conheço ela o suficiente para saber que, em um bom momento, ela não ficaria triste com essa história. Eu até consigo imaginar a reação dela, repetindo a frase que ela me diz desde que a gente casou. “Eu te conheço. Você não vai me trair com alguma gostosona oferecida por aí. Se alguma coisa acontecer, você vai se apaixonar por alguém. Eu te conheço, você é romântico. Mas a gente se resolve”.
Quando cheguei na minha casa vazia, sentei e escrevi quase tudo isso de uma tacada só. Sem revisão, sem pensar muito. Eu acho que eu poderia escrever dezenas de páginas sobre os detalhes da conversa, mas isso aqui já está longo demais. Antes de dormir, eu vejo que tenho uma mensagem no Whatsapp.
“Foi muito bom encontrar você”.
Toda aquela tentação de falar algo mais grita dentro de mim, se debate.
“Foi bom te ver também :) “.
Por via das dúvidas, coloquei o celular em modo avião e suspirei. “Eu tô feliz ou triste?”, me perguntei. Parece uma pergunta simples e relativamente objetiva, mas eu não soube responder. Eu custei a dormir, com medo de sonhar com ela. Quando eu acordo no dia seguinte e me preparo para ir ao trabalho, a impressão que eu tenho é de que tudo foi um sonho. Vê-la, reencontrá-la, chorar, abraçá-la.
E, como quando a gente acorda de um sonho triste, eu volto a viver minha vida normal para esquecer. Hoje tem reunião com cliente. À noite, preciso pegar minha esposa no aeroporto.
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2017.11.11 07:06 tombombadil_uk Today I fucked up: a estranha sensação de reencontrar um amor do passado 12 anos depois

A quem possa interessar, agora tem uma parte 2: https://www.reddit.com/brasil/comments/7cq1rk/today_i_fucked_up_a_estranha_sensa%C3%A7%C3%A3o_de/
Reencontrei uma pessoa muito querida para mim ontem de maneira completamente randômica. É um caso tão bizarro que não sei para quem desabafar, já que esse "relacionamento" que eu mantive há 12 anos não chegou a ser sequer um relacionamento e nunca contei dele para ninguém. Esperei a esposa dormir, sentei e escrevi um conto. Fiz uma trash account para jogar isso aqui.
Desculpem o desabafo longo, mas foi o lugar que encontrei para soltar isso.
xxxx
Aconteceu no fim de tarde de uma sexta-feira quente. A cidade impaciente se esvaía para casa nos ônibus e metrôs lotados, a onda de calor de novembro apertando o passo de quem só queria o refúgio caseiro. Saí do metrô da esperando encontrar uma noite fresca, mas fui pego no pôr-do-sol atrasado do horário de verão. Passara o dia fora do escritório em um evento extremamente técnico e só queria desligar a cabeça. Estava bem vestido, mais do que o de costume. As calças jeans escuras relativamente novas, a blusa social quadriculada que usava quando queria se arrumar – mas nem tanto – e a bolsa de couro recém-comprada para ter um ar mais profissional nesses eventos externos.
Me sentia bonito, sentia até que minha barba reluzia ao pôr-do-sol. Ridículo, né? Um pouco de contexto: sempre fui uma pessoa acima do peso e havia acabado de registrar a perda de 32 quilos e indo à academia diariamente. Como qualquer um que foi gordinha a maior parte da vida, eu estava me sentindo muito bem. Por isso, peço que sejam indulgentes comigo. Até porque esse fato é relevante para a história.
Caminhando pela praça em direção ao ponto do ônibus que me levaria para casa, me desvencilhava dos ambulantes peruanos e suas bolsas falsificadas, dos entregadores de folhetos do sex shop de uma galeria ali perto – frequentadores fiéis da praça desde que eu me entendo por gente e provavelmente responsáveis por um número considerável de árvores derrubadas para fazer seus folhetos nessas décadas – e dos estudantes, que tanto pareciam carecer de pressa. Naquela multidão de gente, me surpreendi por notar alguém que me mirava de cima a baixo logo à minha esquerda.
No começo, não me virei. Julguei ser uma daquelas ilusões que a gente tem no canto do olhar. Três, quatro, dez passos. A pessoa continuava ao meu lado e me olhando atentamente, não sobravam dúvidas. Virei o rosto e dei de cara com ela.
Eu gosto muito de ler, mas não sei se já achei na literatura algum trecho que mostre o quão chocante é reencontrar um amor perdido depois de tantos anos. Ela entrou pelos meus olhos e me atravessou por inteiro, trouxe de volta as memórias que já julgava mortas e enterradas havia muitos anos. Por dentro, eu me senti despedaçado, como se tivesse estourado um balão há muito tempo comprimido no canto do subconsciente. Eu lembrei das manhãs que passava com ela, do dia em que ela me deu um CD do Linkin Park, de quando fui embora sem me despedir e não cortei o relacionamento – tosco, incompleto e desajeitado – que nós mantínhamos.
O choque seria menor, certamente, se não houvesse uma tristeza tão cristalina em seus olhos. Ela rapidamente virou o rosto e apertou o passo, mas eu fiquei ali atrás com aquela imagem fixa na memória. Me permiti olhá-la por inteiro enquanto avançava à minha frente. Não por desejo, mas por saudade. Saudade da pele morena, do cabelo ondulado que lhe descia pelas costas da mesma forma que fazia há mais de uma década. E saudade dos olhos de arteira que ela tinha, dos quais eu só lembrei depois de vê-los tão melancólicos. Nos conhecemos no fim do segundo grau e começo da faculdade, não éramos mais crianças. Mas os olhos dela sempre me encantavam: pareciam os olhos de alguém que está ansioso e animado ao mesmo tempo, o olhar de criança que está prestes a fazer merda e sabe disso.
Por sorte, ela seguia na mesma direção do ponto de ônibus e eu a seguia com meus olhos. Não tive forças para cumprimentá-la, a vergonha falou mais alto. Ela também não quis fazê-lo e foi fácil entender porque. Ela envelhecera bem mais do que eu esperava. Tínhamos a mesma idade, eu e ela, mas lhe daria uns dez anos a mais do que eu sem pensar duas vezes. Ganhara peso, o rosto e o cabelo pareciam maltratados, a roupa era desleixada. Nenhum julgamento aqui, quem não teve seu dia de ‘foda-se o mundo’ que atire a primeira pedra. E mesmo assim fez o meu coração parar. E mesmo assim eu só queria correr para perto dela e dizer oi.
Eu e ela éramos criaturas estranhas. Nós dois vínhamos de famílias de classe baixa, nós dois estávamos em um curso de inglês pago por algum parente mais rico, nós dois começamos a trabalhar cedo, nós dois éramos excelentes alunos, nós dois fazíamos parte daquela onda de rock do começo dos anos 2000 que incluía Linkin Park, Evanescence, System of a Down e algumas outras bandas que estavam na moda na época.
Começamos a nos aproximar quando contei para ela que queria fazer XXXXX (carreira omitida). Ela também queria, por isso passamos o ano anterior ao vestibular trocando dicas, comentando provas e trocando confidências no fim da aula de inglês. Eu fazia questão de levá-la para casa todos os dias após o fim da aula de inglês e nós acabamos ficando muito próximos. Só tinha um detalhe: eu e ela éramos comprometidos. Eu namorava uma colega de escola há pouco menos de um ano e era perdidamente apaixonado por ela, apesar dela ter se tornado uma companheira extremamente abusiva ao longo do relacionamento e termos nos separado. Ela namorava um amigo de infância, tinha tudo para crer que ela também era apaixonada por ele e estava prestes a se casar dali a um ano e meio. Sim, ela casou-se ridiculamente cedo, com apenas 20 anos e teve dois filhos logo depois, pelo que eu ficaria sabendo mais tarde por acidente. Nesse período de cerca de dois anos, mantivemos esse relacionamento estranho que eu sequer sei como classificar. Recém-chegados no curso achavam que éramos namorados, apesar de nós nunca nos abraçarmos, andar de mãos dadas ou coisas do gênero. Os alunos que estudavam conosco há mais tempo e já tinham visto nossos verdadeiros namorados achavam apenas que colocávamos chifres neles. Nós nunca fizemos absolutamente nada. Não houve beijo, não houve cabeça no ombro, não houve mãos dadas. Fisicamente, nunca houve nada. Mas havia ali uma cumplicidade quase criminosa, olhares mais longos do que o necessário, um quase que jamais se tornava realidade. Talvez esse carinho fosse fruto de sermos tão parecidos e termos origens tão similares.
Mas tudo acabou sem aviso. Em um intervalo de meses, sofri um duplo revés. O parente que pagava o meu curso descobriu que estava com câncer e seus custos com saúde aumentaram drasticamente. Eu já estava trabalhando e podia pagar, mas perdi o emprego no mesmo semestre. Tudo aconteceu em um intervalo de um mês, em janeiro, e eu não pude voltar ao curso para o semestre seguinte. Era uma época diferente. As redes sociais não eram tão onipresentes (eu tinha meu bom e velho Orkut, ela achava rede social bobeira) e não havia Whatsapp. E algo em mim insistia em dizer que era errado ligar para ela, que era ir longe demais. Então eu sumi da vida dela sem aviso, sem dar satisfação. Simplesmente não me matriculei no curso e jamais toquei no assunto com ninguém, nem com meus amigos mais próximos. Doeu – e doeu muito – mas eu deixei a vida sedimentar tudo aquilo. Eu ganhei peso, meu relacionamento com aquela namorada não andava bem. Naquele momento, eu só queria sumir e não ver mais ninguém. E aquela saída brusca acabou me ajudando nesse sentido. Some aí a baixa auto-estima. Eu nunca achava que uma mulher estava dando bola para mim até elas praticamente se jogarem no meu colo. Quase todas as mulheres com quem saí tiveram a iniciativa ou deixaram bem claro que queriam alguma coisa, sempre fui lerdo ao extremo para flerte. E perdi grandes oportunidades por conta disso, mas isso é passado e não me causa dor, só uma risadas. Exceto nesse caso.
De lá para cá, soube pouco dela. Descobri por um grande acaso que ela teve dois filhos logo após o casamento (Orkut de amigo de um amigo de um amigo que estava no chá de bebê do segundo filho dela, rs). Também vi que ela não passou no vestibular para a carreira que escolhemos, senão seria mais fácil encontrá-la. O curso era bem concorrido e ela não passou duas vezes. Na terceira, já estava com filho e casada, então não avançou. Esbarrei com ela enquanto estava grávida do primeiro fazendo compras no mercado com o marido. Nesse dia, eu estava acompanhado de vários amigos, completamente bêbado e indo para uma festa na região boêmia da cidade. Trocamos um olhar meio constrangido nesse dia, nada mais. Tinha uma mágoa bem nítida nos olhos dela, mas eu ainda relutava em acreditar que eu significava muita coisa para aquela menina. Eu só iria me tocar anos mais tarde que eu, apesar de estar fora dos padrões de beleza, recebia sim atenção do sexo oposto.
Agora avançamos 12 anos no futuro. Cá estou eu, perdido, olhando para uma mulher que teve um relacionamento tão tênue e tão profundo comigo ao mesmo tempo. Ela parou e entrou em uma loja de sapatos em frente ao ponto de ônibus para o qual eu estava indo e, mesmo pela vitrine, trocamos alguns olhares demorados. Eu queria chegar perto, eu queria dizer oi, eu queria chamá-la para jantar. Mas, no auge dos meus 30 e poucos anos, eu me senti um adolescente envergonhado de 17. E uma voz bem clara ecoava na minha cabeça: “você é casado, você tem um casamento muito feliz e você nunca traiu sua esposa e nenhuma das suas outras ex-namoradas. Você não vai começar a fazer merda agora”.
E se eu fosse dar um oi, serviria de quê? Requentaria um amor adolescente que provavelmente só faria mal a nós dois? Reviveria a mágoa daquele adeus decepado, sem dar a menor satisfação? Tudo isso só transformava minhas pernas em âncoras que meus olhos teimavam em ignorar. Ela saiu da loja e, pela primeira vez naquele fim de tarde, me olhou de forma direta. Sem aquela desviada de olhar que vem um par de segundos depois, sem aquela sensação de acidente ou constrangimento. Nos encaramos por um período que, me perdoem o clichê, parecia uma eternidade. Eu sabia que aquela era a minha deixa para chegar mais perto, mas eu não fui. Ela me deu as costas e sumiu na multidão, provavelmente para sempre. Meu coração ficou ali perdido, sem saber como era possível lembrar-se de tanta coisa em tão pouco tempo.
Sentado no ônibus de volta para a casa, as memórias vinham em atacado. O dia em que ela fez uma cópia do Hybrid Theory e me deu de presente de aniversário. A vez em que eu ganhei de um amigo meu um chaveiro do Nirvana e, quando ela foi pegar para ver, sem querer seguramos as mãos por uns segundos que pareciam compreender toda a história da humanidade. Quando levei meu discman para o curso e a gente escutou junto um álbum do System of a Down no ano em que lançaram Hypnotize e Mezmerize.
É triste a vida ser tão curta, eu concluí. Tem tanto amor para se viver, tanta história que poderia se escrita a dois que nós nunca vamos conhecer. Tanta coisa inesperada que acontece num fim de tarde sem propósito, tanta coisa que a gente deixa de perceber e que acontece porque você notou alguém no canto do seu olho. E eu, muito provavelmente, nunca mais vou vê-la. Se eu tivesse a oportunidade de reviver esse momento, eu não sei o que eu faria. Chamava para tomar um café e pedia desculpa por nunca ter falado que eu era perdidamente apaixonado por ela e que vivia um relacionamento conturbado com uma companheira abusiva, mas que a baixa auto-estima me impedia de agir? Diria que havia praticamente esquecido que ela existia nos últimos 10 anos, mas que bateu um misto de culpa e carinho enormes tanto tempo depois? Não acho que nada disso valeria a pena.
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